domingo, 12 de julho de 2015

   Perdi uma vista, fiquei cega de um olho. Não da noite para o dia. Fui tomada por uma cegueira sorrateira e silenciosa que consumiu minha vista esquerda sem que eu percebesse. Nenhum sintoma grave me ocorreu durante o processo. Apenas uma massa branca tomou conta da superfície do meu globo ocular. Nuvens nos olhos, como algodão doce. Sem lógica, sem relação direta de causa e efeito. Nenhum medico soube dizer com clareza o o que se passou comigo, nenhum colírio solucionou ou reverteu o quadro. Procurei em mim o sentido, porque não sou mulher de deixar pontas soltas.
     Nuvens escondem o céu de ser visto, resguardam o céu da exposição, da nudez. As nuvens são roupas do céu. Também protegem quem está embaixo, dão sombra, opacam a luz do sol. Também dão chuva. Verdade, dão chuva. Talvez por isso eu tenha chorado mais, agora que tenho uma nuvem no olho esquerdo. Comigo a tão pouco tempo, mas já tão minha. Apeguei-me a ela. Talvez lhe invente um nome, talvez a deixe ser sem nomear.
      Nuvem dos meus olhos, essa parede. Parede que agora é sem janela, se os olhos são a janela da alma. Ah, e  agora ninguém pode mais ver a minha alma, salvo se encararem a vista direita, mas acredito que ela não teime a se render as nuvens. De um lado estou guardada de ser vista, de ser posta a visibilidade, então posso ser o que eu quiser e ninguém verá. Nenhum julgamento, nenhum pitaco, nenhuma mostra sequer. Ninguém vai saber quem sou ou o que fiz, o que tenho feito. Como tenho passado, transcorridos meus dias, uma vida velada. Ninguém conhecerá minha verdade. E confirmo novamente que a medicina de nada sabe mesmo.

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