sábado, 15 de janeiro de 2011

Biscoito de vento, pessoas de carne, amores de brisa

Observei atentamente a pele branca que tinha acompanhado há anos. Era a mesma, lisa e fresca. Mesmo que sendo por fotografia, dava para perceber. Percebi que você estava bem, com a vida andando depressa e senti saudade. Senti-me um velho. E me deu vontade de comer biscoito de polvilho. Foi aí veio todo meu sofrimento. São 4 da manhã e ainda não consegui dormir, perturbado pela vontade de sentir na boca o gosto do biscoito que estala. Há um pouco mais de dois anos que moro em Seropédica. Mudei-me no fim de 2008 para cá por ter passado na prova da Universidade Rural e desde então leciono aqui. Isso você não sabe, achei melhor deixar para contar quando você voltasse da Austrália, só para ter novidades, boas novidades para te contar. É sim um pouco de inveja de tudo de maravilhoso que você deve estar juntando para me contar quando nos vermos. Foi por isso que resolvi guardar para mim o que de mais grandioso me aconteceu, para que pudesse te dar maior, engrandecido do tempo em que cultivei em mim o segredo. Droga, nem escrever adianta, a fome de biscoito não passa.
O gosto pelo biscoito de polvilho começou com as minhas viagens de trem. Você sabe tanto quanto eu que no trem se vende de tudo. O artigo mais inusitado talvez tenha sido cabeça de alho ou pó de café. Se bem que deve ter tido outra coisa mais absurda que eu não me lembre agora. O mais comum é sem dúvida amendoin, coisa que eu também aprecio muito. Não sei porque o biscoito de polvilho ganhou esse destaque para mim, não sei quando foi que eu começei a juntar diretamente biscoito de polvilho e viagem de trem, só sei que é batata, eu entro no trem e já fico ansioso, na espreita do vendedor do biscoito de polvilho. Só tem marca esquisita, e os que são em formato de bolinha costumam ser mais gostosos. Não, na verdade acho que o saco é que tem bolinhas. Isso! O biscoito bom é do saco que tem bolinhas coloridas, que imita o da Kero. O fato é que mesmo no trem, não é tããão comum ver biscoito de polvilho vendendo. Não sei, acho que não vende muito. Eles tem a mesma frequência que aquela pipoca doce de saco rosa-choque. Talvez seja por isso o meu desassossego: a escassez. Lei da oferta e da procura. O que tem pouco, valoriza.
Acho que pode ser isso que me fez querer comer biscoito de polvilho a essa hora, depois de ter visto sua foto: vocês dois são tão escassos. É verdade, quando a gente chega a uma certa idade as coisas mudam. São sei se é rabugisse, não sei se é medo, precaução, mas o fato é que se apaixonar não fica tão fácil assim. Uma pessoa que nos consiga despertar paixão, dessa mais pura e cega, infantil, não se acha em qualquer esquina e a gente põe defeito em todo mundo que aparece e endeuza os que ficaram para trás. Os novos parecem sempre pequenos perto daqueles que um dia nos fizeram acreditar. Por isso que hoje você parece mais branca, sua pele mais lisa, o amor maior e a saudade mais doída. É assim mesmo. Em Seropédica nada fica aberto de madrugada e o que eu quero não dá pra conseguir hoje, só amanha. Pena que amanhã a vontade já vai ter passado.

5 comentários:

Thuan Carvalho disse...

endeuzar os que já foram.
realmente, essa é uma prática reiterada...

foi bom pensar nisso.
valeu =]

eliara disse...

Incrível foi ler esse texto agora... Num momento em que vivo esse desejo por coisa rara... Bom é acordar no fim do texto com "pena que amanhã a vontade já vai ter passado".

Lívia Ferreira disse...

Nada cmo um dia após dia!

Matheus Pedroza disse...

Gosto muito do que escreve. Tava meio distante do blog, mas voltei.

Bjos

Lívia Ferreira disse...

Bom, tb to meio parada, mas fica a vontade! bjs