segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Desde quando ele se foi, Catarina não trocou mais o lençol da cama de casal. Completariam 4 meses na próxima semana. Resolveu cultuar as escamas mortas da pele dele (pele rosada, pele frágil). Preferia assim. Lençóis alvos não tem história. Assim como a moça fiel que se casa nova abdica de ter dentro de si outros tantos. Adbica para ser cândica, lívida. Abdica porque acha que assim que deve ser, porque se sente completa com o que tem, porque não precisa de mais. Digamos que os que se contentam com pouco são os que não se perderam conhecendo todo o resto. E isso ela já era. O papel da lividez era dela e a ela bastava. Não tinha espaço na cama para mais disso. Não era com isso que ela queria dormir todas as noites. Seu companheiro deveria ser diferente.
Ao contrário dos que amam as páginas em branco porque sempre poderão enchergar nela mil possibilidades, ela preferia conviver com as escolhas. Não gostava do jogo de não ter nada para poder ter tudo. Apesar disso, sempre desejou a presença dos que contemplam e tem medo de serem presos pelas artimanhas das opções que fazem. Dos que acham que mais pesa o que perdem, do que o que ganham, quando optam. Traiçoeiro livre arbítrio.
Ela gostava das marcas, era uma mulher de escolhas, das que seguem caminhos, mesmo sabendo que assim acaba perdendo outras trilhas. A curiosidade nunca foi seu forte. Era mulher de ganância pequena, nunca desejou o mundo todo para si. Só queria parte dele. Uma pequena parte era suficiente. E justo a parte que mais desejou, tinha ido embora a 4 meses. Mas, quem podia culpar o mundo por isso, por ter pego de volta parte que lhe cabia? Quem poderia culpar a ela por ter se metido pelos caminhos que se meteu? Caminhos que a levaram aonde estava. E quem poderia ainda, culpar a própria parte escolhida por ter reivindicado seu direito de ir e vir? Ninguém tinha culpa. Culpa não era a questão. A questão era a história. Culpa não pertencia a ninguém, mas a história sim. A história era de muitos, inclusive do lençol. Não seriam as mão de Catarina que iriam arrancar daquele lençol, as histórias que tinham. Não era justo, não seria justo. Definitivamente ela não tinha esse direito. E por isso e por tantos outros mais, ela não o fez. Obviamente ninguém sabia disso. Do lençol. Todos achavam que ela estava reagindo bem ao término do casamento. E estava, realmente estava. Mas se ela contasse a alguém sobre o lençol, iriam criar problemas, tornar o que estava tudo bem em problema. E ninguém gosta de problemas. Melhor que fique tudo assim como está. Em time que está ganhando não se mexe. E ninguém mais tocava no assunto do casamento, não tinha porquê trazê-lo denovo para mais discussões. Só o lençol ainda lembrava do casamento. E de tudo mais.

2 comentários:

Carlos HS Brandão disse...

Engraçado como o início do seu post me fez levrar um livro. Anne Rice no começo do livro "Violino" tem uma narração muito parecida com está... pelo menos foi a sensação que me retonou quando li os dois textos. A diferença é que no livro a autora fala de cadáver.

Lívia Ferreira disse...

Tah ai, fica a dica de leitura entao! bju cadu!