segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

As minhas mentiras, tenho reservado às palavras mudas da minha escrita. Entretanto, por mais sinceridade que eu possa trazer em mim, só conseguirão enchergar versões daquilo que trago. Não é que sejas mal leitor ou eu seja pobre artista. É só que seus olhos veêm o que querem, querido. Sua vontade é criadora (e criativa). Sou eternamente fruto de suas mãos, objeto de seu pensamento, construção sua, mas realidade minha: molde, sempre a escapar da forma que queres.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

São 2:24 da madrugada de quarta-feira. Melina deveria estar dormindo, no entanto, a descoberta que fez entre os lençois lhe atormenta a cabeça de tal forma que o cansaço do corpo não vence a inquietação. Arrependimento: "Deveria ter me cansado mais durante o dia...". Não tinha atingido a exaustão nescessária para cessar o movimento da mente. E que maldita é a mente! Já estava quietinha em sua cama, no quarto mais fresco da casa, com ventilador de teto a espantar pernilongos quando se viu diante da revelção mais irremediável dessa fase de sua vida: era amor. Amor dos bons, dos verdadeiros, amor para uma vida toda, vida esta que estaria condenada a partir de então. Aff... Até pior, para mais de uma vida toda, afinal, o destinatário desse sentimento todo era morto. Tinha falecido a dois anos e levado com ele o pulmão de Melina. Desde então, ela passou a fumar cada vez mais e fumava hoje em dia mais de um maço por dia. Nas noites abafadas de insônia como essa, chegava a dois maços fácil. No maço do beiral da janela, restavam cinco resistentes cigarros. Cigarros como guerreiros que eram abatidos depressa, na perda da batalha contra ela mesma. O sexto guerreiro estava entre os lábios dela, vencido. Os olhos de Melina se perdiam nas luzes amarelas dos postes distantes que a janela do terceiro andar avistava com certa dificuldade perante o breu, que era maior. A fumaça que escapava se ia para perto do breu, da noite quente, de bafo seco.
Átila era o nome do defunto. Não que tivesse morrido de corpo realmente, sua matéria sobrevivia no estrangeiro. Tinham se conhecido, Melina e Átila, no carnaval que ela tinha passado com as amigas na capital. "Cordão do Boitatá". Foram logo queimando de paixão desde o primeiro beijo, no domingo de manhã de sol de pedir arrego em que o bloco seguia, e só terminou a noite, na cama de um muquifo qualquer da Lapa. O carnaval sempre gosta de terminar na Lapa. Fim do sexto cigarro. O calor dessa noite era tão estrangulador quanto o daquela outra, do domingo de carnaval de dois anos atrás. Tanto calor foi um certo problema para Átila. Mesmo já estando no Rio a um més por conta da doença de um tio-avô, ainda não havia se acostumado, não era do litoral de sua terra. Apesar de peruano, Melina achava que ele entendia do calor como ninguém, principalmente do calor que vinha dela. Era o que ela sentia entregue aos carinhos dele até a quarta-feira de cinzas (que não podia ter nome mais apropriado). "Pelo menos ainda é América Latina... e ainda tem os primos cariocas.." e ela ria de tanta dor e azar que tinha. Continuaram se falando por dois meses com a ajuda da tecnologia, principalmente internet, porque telefone era um verdadeiro assalto. Melina ia toda noite na casa da sua tia entrar na internet. Como eram vizinhas e a internet de casa era incrivelmente discada, mesmo depois sendo coisa aparentemente rara hoje em dia, isso de internet discada. A de Melina ainda era. Melina tinha sido criada com sua prima Estér, sempre foram vizinhas e confidentes. Estér tinha passado aquele carnaval com Melina como de costume e sabia de toda história, não podia negar-lhe cumplicidade. A internet. Via de mão dupla no relacionamento dos dois. Diante do monitor Melina pode conhecer melhor seu amoado e também toda família dele. Átila era casado. Malditos sejam os sites de relacionamento. E olha que ela demorou a descobrir. Na verdade, foi por muita insistência da prima que ela o procurou na rede. Melina acreditava na palavra de Átila, que dizia não ter tempo para essas coisas.
Átila tinha vindo ao Brasil por conta da morte desse tal tio-avô que na verdade preenchia o lugar de avô para ele. Seu avô tinha morrido quando ele tinha apenas quatro anos e se lembrava pouco de sua figura. Já com o tio avô, tinha convivido até os 15, aqui mesmo no Brasil, quando seus pais se separaram e ele voltou com a mãe para o país em que morava a família materna. Átila veio sozinho ao Brasil por causa do alto custo que a viagem teria se viessem o casal de filhos e sua mulher. Por um acaso, o parente tinha morrido em boa época e Átila pensou que seria um disperdício não estender por mais uns dias a viagem, para relembrar a festa que empurrava todo mundo para rua. Movimento lindíssimo, contagiante, encantador.
Foi isso. Depois de saber da história por completo, Melina deu fim a Átila. O deletou de toda forma concreta possível. Na verdade, ele já não a procurava a tempos, só o movimento inverso se fazia. Bastou ela parar. Não houve insistência (de nenhuma das partes).
Melina tocou a vida, teve outros amantes. A um deles, chegou realmente a sentir um afeto tão forte quanto o que dedicou a Átila. mas foi caso sem continuidade. Como todos os outros.
"Foi assim... - procurava pensar - lindo e eterno enquanto durou". Mas infelizmente, ela não tinha o desapego de Vinícius e era isso lhe martelava a cabeça então. "Meu Deus... eu amo aquele homem morto". E quê fazer com isso? Quê fazer com todo esse amor que não pode ser entregue? Amor como porta que só abre com a chave certa, que não serve a qualquer uma. Como ter sossego para descansar sobre o silêncio de uma noite tranquila, se ela transborda amor. Como descansar enquanto suas veias fervilham, seu pensamento insiste em transitar nas memórias, sua boca seca, engole palavras de afeto que descem azedas por estarem estragando na garganta? Como dormir com todo esse pulsar? Como durmir se ela está viva?

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

A dor que ela sentia, ela bem sabia o que era. Dor antiga, dos tempos do cólera. Qualquer homem da face da Terra, certamente sofreu do mesmo mal. Talvez seja doença mais antiga que os próprios homens. Talvez seja a praga mais corrosiva de todas. Intrínseca ao humano. Dúbia, se pode ser causa primeira, pode também ser o grande ponto final. O motor que impulsiona e a tragédia mais certeira, capaz de motivar o mais duro e derrubar o mais convencido. Claro: amor. Que mais? Amélia estava com todos os sintomas. O diagnóstico era inconfundível e lhe caiu sobre a cabeça como uma sentença. Dentro do ônibus, via as ruas passarem com suas calçadas, sua gente, enfeites: tudo era igual, por mais diverso que fosse. O Rio cinza no verão de céu azul e calor dourado. Tirando ela, tudo mais brilhava. Era época de ano novo, lustroso, relusente. Só dentro dela era tudo velho: as mesmas dores, as mesma angústias, a mesma pena do mundo. Nada aliviava a dor da ausência, a solidão povoada, a solidão das companias. Não importava quem fosse, era sempre a mesma coisa, eram todos iguais: vazios. Não chegavam nem mais a dar a falsa impressão de conteúdo. Ela já os conhecia, mesmo sem trocar uma palavra sequer. Concerteza nenhum deles iria fazer diferença substancial em sua vida. Ela não esperava mais que a sacudissem, não esperava ser sacudida. Não esperava por alguém que a fizesse mudar de vida, nem que a fizesse querer mudar de vida. Só esperava da vida o morno, o que já foi quente e só faz esfriar. A constância, a linha reta, infindável linha reta.
Amélia não era o tipo de mulher que se chamaria de bela, mas tinha algo que a fazia interessante. Um ar de quem domina, um jeito de quem entende da vida, das coisas da vida. Uma cara de quem viveu e conhece, sabe dar forma. Cara de mulher com pegada e desejos a serem satisfeitos. Mulher misteriosa. E isso bastava, bastava para que sempre houvesse homens dispostos a preencher seu tempo. E a essa altura, já tinham sido tantos e eram tantos e tantos outros que se inscreviam como candidatos, que no final tanto fazia. Tanto fazia se fosse João, Pedro, José, ou outro apótolo, discípulo, anjo ou mortal. Todos seriam sempre iguais. Amantes e mais nada.
A dor que lhe expremia os órgãos e secava a boca não tinha direção, ou se tinha ela não sabia. Não sabia mais. Eram tantos e foram tantos que era impossível saber a quem era dedicado o gosto de fel. Então, não tinha solução. Não havia como saciar a vontade do encontro. Afinal, não tinha encontrado e nem vontade de buscar.