terça-feira, 29 de setembro de 2009

Era noite. Ela na varanda, escovava os dentes no tanque porque o banheiro estava ocupado. Do vizinho vinha cheiro de pimentão: cachorro-quente. No entanto o apetite era outro. Não sabia se alimentava a vontade de ligar para Bento. Bento... (pausa dramática). E de novo: Bento. Utimamente, sempre Bento. Nunca tiveram nada de concreto, Maria e Bento, mas ela pensava nele antes mesmo do nada entre eles ter acontecido. Desde muito menina quando o via passar. Coisa que era rara inclusive, mas suficiente. Assim como foram suficientes três encontros espassados num tempo de uma semana do primeiro para o segundo e quatro meses do segundo para o terceiro, para que ela se visse completamente desnorteada. E já fazia mais de dois meses desde da última noite. Ele sempre pareceu brincar com ela. Esconde-esconde. Poderia ser pique-pega. Ela preferiria. Mas, o fato era que Maria sentia muita falta dele. Falta de ter conseguido viver tudo aquilo que sua imaginação produzia para os dois. Ela tinha amor, amor por esse Bento. Tinha também o outro Bento, um substituto alcançável para o primeiro. Tinham ridiculamente o mesmo nome. Era como uma dessas peças que a vida gosta de pregar na gente. Puro acaso. Tinha encontrado esse Bento substituto hoje, e pensava em toda essa piada enquanto a espuma da pasta de dentes era cuspida no ralo. Ia embora lentamente cano abaixo com água da torneira que caia com força, quebrando o silêncio do apartamento. Não mais barulhenta que o movimento das idéias na sua cabeça e, não mais forte do que a angústia em seu peito. Essa situação não podia continuar assim, aquilo iria matar Maria. Matá-la em silêncio, no seu silêncio. Corroe-la sem que ninguém notasse e quando percebessem seria tarde, estaria morta. Dura e seca. E veria disperdiçado todo aquele sentimento tão nobre. E isso, pensava ela, não podia acontecer, era injusto demais. A voz precisava sair. Precisava sair aquela noite. A angústia subia pela garganta, envolvia os pulmões, bloqueava o ar. A coluna doía, os olhos pesavam. Maria sentia o corpo todo incomodado. Maria precisava agir. Expelir o movimento, expelir aquele pigarro. Era isso, pensava: "preciso escarrar Bento". Desobstruir a passagem para o ar, a passagem para que outros pensamentos me atinjam, renovar a vida antiga, renovar a vida gasta. Era preciso fazer alguma coisa. E fez. bateu a escova de dentes da beira do tanque, para livrar dela o escesso de água. Guardou a pasta de dentes e a escova. Foi dormir.

2 comentários:

Renata Macedo disse...

Lívia ... juro que se eu tivesse bala na agulha (dinheiro) eu te contratava para escrever textos para fazer uma peça de teatro!! Amo seus textos!! Bjão

Lívia Ferreira disse...

Bem, eu escrevo por prazer não por dinheiro... mas n sei se escreveria uma peça de teatro, aí a coisa é mais delicada, enfim... fica a proposta...